top of page

Triste fim de Sybilla, a Parmena

  • Foto do escritor: Juan Garces
    Juan Garces
  • 27 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Encostei-me a um muro cinza na tentativa de fazer meu coração parar de tentar escapar do meu peito. Olho para cima e o céu está avermelhado. Já não sei mais se é um evento natural ou um efeito desse mundo mórbido, infectado por seres sem propósito ou vida alguma. 


Olhei para o meu braço, onde estava inscrita a minha sentença de morte. Pensei em tudo e, atualmente, já nem sei mais se quero ser salva. Tenho algumas coisas para resolver; até lá, manterei meu sopro de vida no lugar. Mas preciso assegurar minha mente para reconhecer o momento em que terei de abandonar este plano por livre e espontânea vontade. 


Ao meu lado, apenas uma mochila e uma cópia do diário de alguém que se autodenominava Slayer — um tanto inútil como recurso de sobrevivência, mas fundamental para eliminar boa parte dessas aberrações. Este mundo não pode ser salvo. Nem ao menos sei quantos tipos de seres o habitam. Mas, se depender de mim, este mundo terá um déficit de 50% desses vivents.


Na mochila, pego uma garrafa de água e bebo o que restou dela. O que eu queria mesmo era uma garrafa de uísque. Álcool cairia bem, mas cometi o equívoco de ser prudente e pensar mais na minha hidratação do que no meu bem-estar antes da morte. Dizem que nenhum ser vivo acredita que o dia presente será o seu último. Talvez apenas no passado. Neste mundo, qualquer dia pode ser o último. E sabendo disso, preparo meus armamentos.


Verifico se há balas no coldre e no pente. O braço infectado dificulta o manuseio da minha MP-40. “Justo o braço dominante foi infectado — que merda.” Vasculho novamente e procuro alguma arma mais adequada para longa distância. Todas elas estão sem munição. A solução é avançar por cima.


Com as armas, trago alguns livros e um discman. A música, tão escassa neste mundo, ainda me acalma; algumas faixas me levam à ação. Talvez eu precise disso. Olho para os dois CDs na mochila e escolho o mais óbvio: aquele que coloca energia no corpo. Abro a capa do Drowning Pool, retiro o CD, coloco no aparelho e aperto o play. Pronto. Agora posso me preparar.


Há meses viajo pelo mundo tentando descobrir novos conhecimentos. Fiquei encarregada de coletar e descobrir novas mídias junto com alguns companheiros. Ah, conhecimento! Algo que se perdeu neste mundo. E, antes que eu pudesse encontrar algo relevante, um desses viventes nojentos nos encontrou. Éramos três pessoas e dois animais. Todos mortos, menos eu. 


Consegui escapar por pouco, mas meu braço esquerdo não teve a mesma sorte. No lugar onde antes havia um braço humano, agora se encontrava um membro de cor de carne viva, uma mistura de tons vermelhos, amarelos e marrons. Engraçado como um braço estava maior do que o outro. O infectado se destacava, talvez, a uma distância muito longa. Ao tocá-lo, a sensação era estranha: como tocar em uma ferida e, ao mesmo tempo, sentir a textura de outro ser vivo que habitava minha pele. No fim, era um parasita.


Calculo que foi imprudente viajar tão longe do Forte Aarne-T. Talvez minha esperança, alimentada pelo meu posicionamento ideológico de liberdade e justiça, tenha contribuído para eu meter os pés pelas mãos. Li um livro recentemente que expressava a hipótese de que todas as pessoas tinham ideologia — um livro escrito há séculos, antes da grande catástrofe. Talvez naquela época isso fizesse sentido. Mas, e hoje? Máquinas, I.A. e vivents têm ideologia? Por que convenci o grupo a fazer tal empreitada suicida?


Ver o corpo deles no chão foi a situação mais triste e apavorante que já presenciei. Claro, todos sabemos que morreremos um dia, provavelmente antes da velhice. Mas existe um debate interno entre o emocional e o racional em nosso íntimo. Um lado sabe que a morte é inevitável, mas o outro, por teimosia, insiste em ter esperança. No meu caso, um dos lados morreu. Ver meus companheiros — que cresceram e planejaram aventuras comigo — estirados no chão, com uma finalidade terrena, acabou com qualquer resquício de emoção positiva.


Observo por entre o muro, tentando pensar em alguma coisa. Não quero morrer em vão. Pelas minhas contas, há cinquenta vivents. O diário do Slayer é claro sobre como matá-los. Mas não importa: eles se reproduzirão três vezes mais rápido do que morrerão. Que infortúnio nascer neste mundo! Mas agora não importa mais. É hora de meter bala em todos. 


Pulo o muro e vou para cima desses infelizes! Citando a música: deixem os corpos caírem no chão!

bottom of page