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Carne fresca

  • Foto do escritor: G. Pawlick
    G. Pawlick
  • 26 de dez. de 2025
  • 18 min de leitura

Atualizado: 2 de jan.

Despertei suada sob um sol do meio-dia. Um feixe intenso invadia violentamente a janela quebrada, atravessando a cortina fina e puída, e queimando meu rosto desconfortavelmente. Do lado de fora, a luz difusa do dia revelava a latrina que é Bangseux e o silêncio da paisagem chegava a ser incômodo para aqueles já acostumados com a vida noturna da cidade. O ar pesado e seco era quase intragável. E minha boca, sem saliva, craquelava despertando o retrogosto vívido de álcool vagabundo e cigarro velho. 


Da janela, nada se mexia, a ausência de vento fazia da cidade uma carcaça mumificada e abandonada no deserto. Via as ruas como quem encara as órbitas ocas e duras de um lagarto morto ao sol.


Aos cantos do cômodo que eu tinha por casa, a areia do deserto se acumulava, algo inevitável em Bangseux. O cheiro azedo que sentia não era das paredes podres que revelavam sua sujeira somente durante o dia, mas certamente de meu próprio corpo, vestindo a mesma roupa a dias. Isso já não me incomodava, a cidade sempre fora suja, não seria a minha presença que faria diferença em meio a podridão. Por isso mesmo, assim como estava resolvi partir para rua, procurar na claridade a lucidez que a cidade me tiraria ao cair da noite. 


Catei a costumeira jaqueta de couro surrada ao pé do colchão, somente para descobrir o vômito seco que se espalhara por todo o forro. A sacudi inutilmente e decidi por deixá-la ali mesmo. Atravessei o sol e a solidão das ruas, ambos igualmente opressivos, em busca de alguém que, assim como eu, ousara desafiar o calor. Avistar outra alma desgraçada era uma esperança de não ter que lidar com meus próprios demônios por muito tempo. 


Queria clareza, mas não o suficiente para ter que encarar minha própria existência.


Lutando contra meu próprio corpo enquanto, a passadas frouxas, chutava a grossa poeira do chão, lembrei-me que a essa hora havia uma matinê no mechanódromo. Uma corrida de bottons onde um azarão conhecido da Camposecco pagava dezesseis por um - se eu ganhasse daria para esbanjar nas áreas vips de La Chenille hoje - Mas o prazer certamente não estava na vitória, estava no falso motivo. Se ganhasse era pretexto para gastar, se perdesse, era razão adicional para me entorpecer mais cedo. Buscava me agarrar a uma centelha de vontade, um motivo, um afazer - ainda que vazio - para completar o ciclo diário da existência. 


Imersa em mim mesma, pensava na corrida e vasculhava os bolsos atrás de dinheiro, quando os primeiros gritos agudos chegaram ricocheteando pelos prédios. Não havia alarde, o caos fazia parte da rotina de Bangseux. Mirava o chão quando um vulto passou rápido, tão próximo que, pelo cheiro, pude sentir que não se tratava de alguém da cidade. Levantei a cabeça e atrás dele vinham, ao som de assobios e guinchos, um grupo de quatro a cinco homens da Camposecco, sobre motos e bottons de montaria - era nítido que se divertiam com a perseguição. 


Com a passagem deles, a areia subiu alto tornando-se uma película, e ao olhar para trás em direção a ação, pouco pude ver no primeiro momento. Uma silhueta escura tropeçava em si mesmo, devido aos laços dos vaqueiros da Camposecco que a prendiam. A poeira descia preguiçosa, sem pressa de relevar o que acontecia. Ouvi um grito feminino. Vi lampejos de descargas elétricas dos laços dos vaqueiros. As silhuetas se unificaram a tal ponto que eu não podia distinguir o que acontecia. 


Fiquei parada, olhando enquanto eles retornavam o caminho. Não era curiosidade, era um tédio passivo. Andando devagar, o laço tensionado dos vaqueiros puxava uma jovem.


Não era das Terras Vazias, era evidente pelas suas roupas, ainda usava o macacão azul marinho dos lunarianos, ainda que rasgado e coberto de poeira do deserto, de modo que a escuridão do azul era consumida pelo amarelo desbotado da areia. Ela não era selvagem como outros, obviamente havia raiva, havia resistência, havia ímpeto pela vida, mas não havia aquela centelha primitiva daqueles acostumados a essas terras… A cidade a engoliria por completo, se alimentando da sua ingenuidade, como uma raposa-do-deserto que se delicia com um gordo inseto sob lua. 


A barbárie tem um tom banal em Bangsex, tão desbotada quanto as fachadas dos cassinos. Diferentemente de como surgiu, o caos foi desaparecendo aos poucos, sumindo pelas esquinas. E logo, eu já não lembrava do ocorrido. 


- Hey! vai um teco? - o chamado me trouxe de volta a realidade quente da tarde - Cê não parece das caravanas da Camposecco nem dos Ghoultrax. Para estar a essa hora vagando só pode estar na seca - sob a sombra um vendedor da Pharma Rats fazia seu papel.


- Estou indo no mechanódromo, hoje tem matinê - respondi sem interromper meu passo


- Ih chefia. Não vai ter não. Parece que deu um problema com uma caravana de escravos. Tinha uns lunarianos no meio do pessoal que foi capturado e parece que eles conseguiram fugir já dentro da cidade, libertando todo mundo. - o rato esboçou um sorriso cínico de quem gosta de ver a confusão acontecer - Os vaqueiros estão caçando eles. Já já se resolve. Mas a corrida foi adiada.


***


De dia as luzes de led das fachadas eram fracas demais para conferir vida às ruas amareladas. À noite, no entanto, essas suas apáticas cores desbotadas pelo sol ganhavam vibratilidade com o neon acesso e fazia parecer que a ressaca vespertina dos prédios e estabelecimentos havia passado. 


As pessoas surgiam com o cair da noite, os corpos à mostra, a pele e o látex reluzentes, mas os olhos sempre eram apáticos, levemente mortos por dentro. Pálpebras cansadas que tentavam esconder o vazio interior de cada um. Mas com eles também vinha um hálito de vida. A ânsia que só a sombra e a penumbra despertam. 


As pessoas aqui aprenderam a não sentir. Suas dores fizeram com que se fechassem em uma existência blasé, da qual eles não sabem mais sair. Eu não estou fora disso, afinal, é preciso admitir que há um prazer singular nesse tipo de vida. Aqui, todos estão imersos em seus quereres frívolos, estimulados por uma esmagadora falta de propósito que a cidade nos traz. Nós perdemos a habilidade de saber o que queremos. E nessa ausência, o álcool, as drogas, o jogo, o espetáculo, preenchem o lugar. 


Eu não condeno. Afinal faço parte. Acredito que é uma busca mais objetiva e concreta. Os que sobrevivem lá fora acreditam que estão atrás dos desejos mais básicos. Mas só quando todas as aspirações e necessidades são desfeitas que realmente começamos a cobiçar o básico. Queremos somente a próxima dose, os próximos segundos de uma foda, o próximo golpe de uma briga assistida… Não há nada senão o agora. É um eterno estado de suspensão no tempo, afinal não importa aquilo que não pode ser saciado instantaneamente. 


Os gritos, risos e gemidos já povoam toda Bangseux. Ainda estava cedo para os padrões da cidade. Eu havia bebido alguns goles em uma boate, mas o lugar estava cheio com uma turma da Ghoultrax e o ambiente havia ficado mais tóxico que de costume. Saí de lá e parei em um meio-fio, apreciando uma leve tonturinha de início de embriaguês. Uma tragada preenchia pulmão e eu brincava de ver formas na fumaça que subiam do vaporizador quando, entre elas, desfocado ao fundo na cena, um vulto surgiu rápido, atravessando a luz rosada que piscava em um beco.


Não sei bem explicar. Sempre há algo acontecendo ao canto dos olhos em Bangseux, seja uma foda ou uma violencia. No entanto, aquele movimento me chamou a atenção e eu realmente não posso explicar, mas eu sabia do que se tratava. 


Atravessei a rua calmamente. No beco escuro, uma porta de ferro entreaberta, deixada assim pela pressa de chegar ao outro lado. Atravessando-a se revelava uma escada muito estreita, de luz fraca, que parecia desnecessariamente comprida. Subia e ouvia passos apressados uns lances acima. 


O fim da escada deu em um cômodo claustrofóbico. Não havia saída e parecia parte de um aposento maior, que havia sido separado e fechado por sei lá qual motivo. Haviam fios que atravessam para dentro da parede e uma luz central funcionando. Talvez acesa por fazer parte do outro lado da sala que havia sido isolada. 


E em meio as quatro paredes rabiscadas de pixos, a jovem lunariana me fitava com desespero no olhar. Um animal acossado. Quase rendida ao pânico.


- Ôh! Calma lá. - respondi levantando as mãos a altura do peito, para mostrar que não havia nada senão o vaporizador.


Ela deu uns passos para trás inevitavelmente encontrando com a parede, enquanto os seus olhos passeavam pelo cômodo atrás de uma rota de fuga ou uma arma improvisada. Eu estava na mesma posição. Ela, em desespero, ameaçou correr para um dos lados para, rapidamente, mudar a direção, como uma tentativa de gerar uma distração rápida.


Eu não sabia o que estava fazendo ali, mas eu não tinha o intuito de capturá-la. Provável que ela conseguisse passar correndo por mim e atravessasse a porta sem problemas. Mas ela não esperava - e nem mesmo eu - que nessa sua passada mais forte ao mudar de direção, o chão cedesse.   


- Ta viva? - indaguei admitindo no tom uma certa indiferença


- Por favor, não me machuca. Não me entregue de novo pra eles - sua voz subiu do buraco escuro.


Cheguei mais perto, mas não muito. O chão podia ceder mais.


- O que tem aí em baixo? - perguntei


Houve silêncio. Ela certamente hesitava, não sabia se podia confiar. Ela estava já a algumas horas em Bangseux, não a culpo. Um fungado triste e reprimido subiu. O silêncio se estendeu.


- Não tem nada. - Respondeu ela com a voz levemente embargada. - Não tem luz aqui. Sinto a parede. Parece ser menor que aí em cima. Consegue achar algo para me puxar de volta? - Dessa vez fui eu que hesitei. O silêncio se fez por alguns segundos. - Oi. Está aí ainda?


- To aqui. - Fiz uma pausa e sentei no chão - Mas não sei se vou fazer isso não. Na real, não faz muita diferença pra mim se o pessoal da Camposecco vai pegar você ou não. Mas daí pra ajudá-la a fugir e eles chegarem de repente… Desculpa aí. Mas entre você e eu, vou primeiro salvar o meu couro. 


Novo silêncio alongado se fez, entrecortado por sons que denunciavam que a jovem lá embaixo tentava conhecer mais ao seu redor. Levantei e bati a poeira das calças.


- Certo. Eu vou lá então. Ou você quer companhia? 


A resposta demorou a vir. Parecia que o diálogo havia consolidado seu ritmo.


- Que diferença faz pra você? Você acabou de dizer que não importa se eles me encontrarem ou não.


- Ah, sei lá - respondi buscando propósito - Eu não tenho nada melhor para fazer. E, se caso eles aparecerem, eu posso dizer que fiquei de olho em você e quem sabe ganhe alguma coisa.


- Sua filha de uma puta! - Gritou ela da escuridão.


- Condene o jogo, não jogador. - respondi apática, quase automática.


- Vá tomar no seu cu! - respondeu com o tom carregado de aversão - É muito cômodo para você dizer isso estando livre aí em cima, sem ter que estar se escondendo de ninguém e ainda se ausentando de tomar qualquer decisão.


- Eu não tenho o que decidir, as duas opções são iguais para mim. Não há impasse. Mas tomar uma atitude, em especial a que você quer que eu tome, pode ter consequências. Não tenho nada contra você. Me parece que você está segura aí e também não pode ir a nenhum lugar. Me dou ao luxo de não ter que decidir. Nem mesmo se você vive ou morre.


- Sério? Tipos como você me dão raiva. Escondem uma passividade atrás de argumentos rasos. Existe sempre um "se”, uma condição que é usada para manter a inércia.


-  Você fala como se toda decisão fosse ativa. Fazer e chegar em algum lugar ou não fazer e permanecer onde está. 


- Me parece bastante lógico assim - disse ela com desdém


- Quer saber? Ficou chato. - dei uma tragada curta no vaporizador - Acho que vou embora - respondi por entre a fumaça, dando os os primeiros passos até a porta.


- Espera. - chamou ela em tom mais elevado, para de novo surgir aquele breve silêncio que pontuava nosso diálogo. - Você não vai me entregar, né? Você falou que não fazia diferença para você, então não tem porque dizer para alguém que eu estou aqui. Seja legal e decida fazer algo bom por alguém.


Me rompeu um riso interno, cínico, daqueles que escapa pelo nariz. Não sei se ela percebeu.


- Essa sua moral não vale nada nessa cidade. - Dei uma nova tragada, dessa vez mais longa - Quer um conselho? Abandone tudo que acredita e, talvez, consiga sobreviver aqui.


- Minha vontade e minha moral foram o que me fizeram estar ainda viva desde que fui capturada… - ela hesitou para então completar -  Não. Desde que cheguei nessa merda de planeta.


- O que fez você estar viva até agora, é porque você é carne fresca. É uma mercadoria para eles. E eles não vão danificar o produto.


- Parece que em nenhum lugar é diferente então. - Sua resposta capturou minha atenção e indaguei de pronto.


- Mas você não é do império Lunaterra? Toda vez que aparece um dos azuizinhos capturados aqui, eles só falam da vida perfeita e reclamam em como aqui são todos selvagens.


- Vocês SÃO uns merdas de uns selvagens! - proferiu para então retornar em um tom menos raivoso e mais melancólico e fatalista - Mas em todo lugar é igual. No Império somos todos engrenagens de um sistema, que é só vendido como perfeito para aqueles que Lunaterra quer conquistar. Se dizem diplomatas, mas quando a fala macia não funciona, recorrem a violência, como qualquer ser vivo nesse planeta escroto.


- Nisso, pelo menos Bangseux é honesta, ela quer te foder e não esconde isso.


O silêncio se fez de novo como um corte seco e limpo. Era possível ouvir o ruído baixo e constante dos neons do lado de fora. 


- Vai porra… - uma suplica carregada de impaciência subiu da escuridão. - Pelo menos me ajuda a sair desse buraco - disse a voz no escuro.


Não há nada senão o agora. Afinal não importa aquilo que não pode ser saciado instantaneamente. 


- Certo - respondi alongando a palavra enquanto ainda refletia a decisão - Mas o que eu ganho com isso?


A ausência de resposta marcava seu raciocínio, enquanto o zumbido distante de máquinas criavam uma metáfora.


- E se a gente fizer uma aposta? Vocês não adoram apostar por aqui? - Havia ânimo em sua voz, como quem, em um lampejo, descobre um enigma.


Rompeu-me um curto e sonoro riso sincero.


- Algumas horas na cidade e já está se comportando como uma nativa - respondi em tom de galhofa.


- Que bom que meu desespero te diverte - disse ácida - Mas então: interessa? - Emendou impaciente.


- Faça sua proposta. - Desafiei.


Como de praxe, a ausência pontuou a conversa novamente, desta vez se estendendo a um ponto quase desconfortável, quando ela soltou:


- Calma. Estou pensando ainda. - Não pude evitar que me escapasse uma gargalhada, ainda menos desinibida que o último riso. 


- Por um instante até achei que você não fosse tão ingênua quanto aparenta.


- Taí! Você acha que eu não consigo me virar nesta cidade. 


- Eu tenho certeza. 


- Então aposte comigo. Você me tira do buraco e se eu conseguir chegar até os portões da cidade eu fico livre.


- Você só pode achar que eu sou imbecil - disse entre um riso debochado - Não tenho nenhuma garantia que você não vai fugir e, mais, o que eu ganho com isso? Não se trata nem de uma aposta de risco, pois se eu ganhar ainda fico sem nada. 


- Eu faço o que você quiser quando estivermos fora da cidade. - disse determinada - Mas para isso, se torna uma aposta onde os dois ganham ou os dois perdem. Tem a ver com confiança. - Fez uma breve pausa - Eu não vou fugir. Você me acompanha até o portão, se eu for pega, não muda nada para você, se eu conseguir sair da cidade, você ganha o que quiser. 


- Não me parece uma aposta, parece uma troca, um acordo comercial qualquer.


- A aposta se dá pela confiança. Eu digo que consigo passar despercebida pelas pessoas nas ruas e você, como já deixou claro antes, acredita que não.


- Você está desesperada. Isso nem é uma aposta. - O diálogo estancou novamente por alguns segundos - Vamos simplificar a idéia. Um jogo rápido de verdade e mentira.


- Pode me tirar daqui antes? - blefou


- Não. O jogo consiste em cada uma de nós contar uma história e outra tem que adivinhar se é uma verdadeira ou falsa. O jogo segue até a primeira errar, conferindo a vitória para a outra. Se você vencer essa rodada eu te ajudo a sair desse buraco. Depois vemos se você consegue sair da cidade. Mas tem um último detalhe, é um jogo sobre moral, precisam ser coisas pessoais, sobre saber ler e julgar o outro. 


- Certo.


- Eu começo. Eu nunca passei ninguém para trás


- Até parece. É claro que é mentira.


- Acertou. Você agora.


- Eu… eu nunca fui boa com números e estatísticas.


- Vou arriscar que é verdade. 


- Correto.


- Bem… Não temos a noite toda, pelo menos eu não. Então vamos deixar mais pessoal: Minha rotina é vazia. Eu nasci nessa cidade e se você sobrevive aqui por um bom tempo, não existe muita coisa que te surpreenda. De dia faço algumas apostas e gerencio outras, à noite, me entorpeço buscando afastar o tédio.


- Essa me parece verdade.


- Acertou de novo. Não era difícil.


- Eu vim de um lugar mais a oeste daqui. Alguns lunarianos nos ofereceram uma vida melhor do império - Não esperei que ela terminasse.


- Nem precisa continuar. Você certamente nasceu em Lunária. - Nós duas sabíamos que não precisava de confirmação, então segui - Eu não me importo muito com as outras pessoas. Tendo estado aqui a minha vida toda, vi coisas realmente grotescas, o suficiente para saber que a vida não vale quase nada.


- Essa é difícil… - Refletiu - Na verdade, é uma pegadinha. A sua história é verdadeira, talvez até acredite que a vida não vale nada, mas não é verdade que você não se importa. Senão, não estaria tanto tempo aqui nesse quarto escuro. Você só aprendeu a viver nesse mundo hostil como todo mundo. É um personagem muito bem construído de si mesma, com o único intuito de fugir da dor. Essa rodada não deveria valer.


- Tá bom então. Está certa. Sua vez.


- Bem, eu nasci na colônia Lunar, como já ficou claro, onde tudo, até o ar que você respira, é medido, avaliado e classificado. Lá, quem não serve à ciência serve às armas. E eu... bem, eu nunca servi para nada disso. - Uma pausa se fez. Interpretei como um fôlego necessário que  ela criara para si e, assim, deixei que ela decidisse quando decretar o fim. Ela continuou - Eu era só alguém que errava demais pra um mundo que preza eficiência. Fiquei anos numa estação de controle, apertando os mesmos botões. Anos operando um terminal de dados, apagando nomes de quem falhava e registrando os que tinha hesito. As Missões Erebos eram um rumor que sussurrávamos quando alguém errava. Uma ameaça velada. Nunca pensei que um simples rumor ia me chamar pelo nome. Quando me mandaram, achei que era só mais uma punição, mas o planeta... o planeta era cruel de um jeito vivo. O ar doía pra respirar, o chão parecia puxar a gente de encontro a ele… Sobrevivemos por alguns meses, racionando tudo, dormindo em turnos. Eu tentei me provar útil e, quando finalmente todos acreditávamos que poderíamos viver neste planeta, vocês, seus filhos da puta, chegaram. Cercaram a gente no meio da noite. Queimaram, mataram e roubaram coisas que só eram valiosas para nós, pessoalmente valiosas… E naquele instante, antes de tudo escurecer, eu pensei que talvez o propósito da Erebos sempre fora esse: de desaparecer de vez com aqueles como eu. E, diante da inexistência, eu até fiquei feliz com a idéia.


- Você se revelou uma péssima jogadora. - Disse enquanto processava o relato dela por alguns segundos. - Não tem como ter dúvidas. Há detalhes pessoais demais…


- Sim. - respondeu baixo, quase sussurrante.


- Sendo assim, digo que essa história é mentira.


- Você só pode estar de brincadeira comigo! Que merda é essa que você está tramando? É claro que você sabe que não é mentira. - O tom de sua voz evidenciava sua indignação, mas sobretudo sua desconfiança.


- Você ganhou. - disse - Espera aqui que eu já volto.


- Hey! - gritou ela lá de baixo ainda indignada


- Fica tranquila, eu vou cumprir com a minha palavra. E ainda vou te acompanhar até os limites da cidade. Pode chamar isso de piedade, empatia, ou de pena se quiser, tanto faz.


***


Para içá-la para cima da fenda usei um cabo grosso, arrancado de um emaranhado de fios soltos largados no canto do beco, talvez o resto de algum bottom quebrado ou parte de alguma gambiarra elétrica esquecida. Ela, ao subir, agarrava-se com força, movida pelo medo de vacilar e cair de novo em algum lugar ainda pior. 


Do lado fora, entreguei-lhe um casaco comprido que havia conseguido de um velho na rua em troca de uma mixaria, a fim de que ela cobrisse o uniforme lunariano e se misturasse em meio aos notívagos de Bangseux. Ela torceu o nariz e virou o rosto em careta.


- Isso fede demais - reclamou.


- Melhor feder do que brilhar - respondi. - o uniforme vai chamar muita atenção aqui.


Ela vestiu o casaco de forma rígida, seus movimentos retraídos denunciavam o receio de que qualquer gesto em falso pudesse denunciá-la. Ela estava nitidamente apavorada e não conseguia esconder isso em suas feições. Seus primeiros passos surgiram travados, contidos como quem deseja correr.


A cidade já estava acordada e as silhuetas surgiam das sombras com fervor. Luzes de neon pulsavam refletidas nas paredes, enquanto a música escapava dos estabelecimentos como uma hemorragia constante. Bangseux tinha voltado a respirar, se tornando mais fácil desaparecer, desde que se soubesse como.


- Relaxa. Você está toda travada. Está agindo de forma suspeita - murmurei aproximando o meu andar ao dela. 


- E como eu devo andar então? - retrucou tensa.


- Só anda como se não tivesse para onde ir. - Continuei a fim de tranquilizá-la - É difícil alguém reparar em algo em meio a tanta coisa acontecendo nessas ruas. Mas você está dando mole demais. Vou te ajudar. Vamos tentar seguir por um caminho mais isolado. Chega mais perto e me acompanha.


Ela diminuiu o passo, contrariada. E o silêncio, agora calculado, imperou por vários metros.


- Você mentiu no jogo - disse ela de repente, quase murmurante.


- Deixa disso. Eu já disse que você ganhou. - respondi igualmente rápido e baixo


- Você chamou de mentira algo que sabia que era verdade. Isso é trapacear. - insistiu. 


- Trapacear, faz parte do jogo!


- Não se o jogo era sobre moral.


- Principalmente quando o jogo é sobre moral — respondi fazendo questão de dar enfase ao "principalmente”


Ela apertou o casaco contra o corpo e, não sei dizer se foi o gesto ou a conversa, mas logo na sequência, enquanto desviamos de um turbilhão pessoas em um pequeno aglomerado na rua, um homem completamente bêbado, com os olhos vidrados e um copo na mão, esbarrou nela e a segurou pelo braço, antes mesmo que ela pudesse reagir.


- Ei, ei… - disse mostrando os dentes tortos em riso malicioso, enquanto tentava abrir-lhe o casaco puxando de leve — Essa é nova, não é? Quanto tá saindo?


Ela congelou.


- Larga ela seu escroto - disse empurrando o homem pelo ombro.


Ele me olhou de cima a baixo, confuso, e deu uma gargalhada.


- Calma lá! Achei que era mercadoria, não sabia que tinha dona - disse se afastando ao mesmo tempo em que tinha sua atenção roubada por outra jovem nas proximidades.


Ela ficou parada por um segundo a mais do que devia.


- Isso… - sua a voz falhou - Isso acontece sempre aqui?


- Pelo visto, com mais frequência você está por perto - respondi.


Atravessamos uma longa rua de bares, com mesas ao relento e pessoas espalhadas. A baderna ajudou a nos misturarmos, ainda que diversos olhares tortos tenham encontrado com a incomum silhueta encasacada da jovem lunariana. Na primeira oportunidade dobramos uma esquina escura e tentamos costurar por ruas estreitas e becos insalubres, ocasionalmente povoados por bêbados caídos, drogados delirantes e casais transando.


A tensão era pesada e eu quase podia sentir o pulsar eufórico dela invadir a atmosfera. Seus braços, apertados em volta do próprio corpo, continham a inquietação e o medo, para que eles não escoassem para as pernas impedindo-a de andar. Sua respiração era acentuada e o cabelo desarrumado entrava na boca entreaberta conforme ela arfava.


Conseguimos cobrir uma boa distância despercebidas, até bem perto dos limites da cidade, onde o vento seco do deserto já trazia porções de areia ao encontro de nossas faces. Contudo ainda faltavam algumas quadras e, daqui em diante, as construções ficavam espaçadas obrigando-nos a andar por ruas mais abertas, onde era fácil enxergar pessoas suspeitas atravessando avenidas com poucos estabelecimentos abertos. 


Viramos mais uma esquina escura e do outro lado da rua alguns cowboys da Camposecco bebiam encostados em uma parede, fazendo guarda em meio a um estabelecimento aparentemente vazio. 


Estávamos nós duas em uma viela estreita transpassada por fios, a última desse porte, quando avistei os vaqueiros do outro lado. Ainda parcialmente cobertas pelas sombras e sem poder fazer barulho, segurei-a pelos ombros, a fim de lhe mostrar o que ela ainda não vira. Ela olhou para trás surpresa pelo contato físico, mas deixou que eu me aproximasse. Encostei o peito em suas costas e envolvi firme meus braços por cima dos seus, para então proferir um curto e agudo assobio, indicando a Camposecco onde estávamos. 


Os vaqueiros olharam em nossa direção. Eu aumentei a pressão contra seu corpo enquanto ela esbravejava e tentava se desvencilhar. Pude ver de relance seus olhos inundando de pavor.

- Não é nada pessoal. Foi divertido bater papo. - falei de maneira suave enquanto ela ferozmente se debatia - No final eu estava certa, você ainda não sabe lidar com essa cidade. Sendo assim eu acertei. Você fica me devendo, para quando nos esbarramos por aí. 


Dois dos homens da camposecco atravessaram rápido a rua e logo já à seguravam pelos braços contendo sua fúria. Segui adiante cruzando com o último deles, que avançava pacientemente até os outros.


- Eu sei que ela é mercadoria para vocês - disse ao vaqueiro mal encarado - Deu trabalho ficar de olho nela a noite toda. Bem que podia rolar uma compensação.


Ele vasculhou os bolsos e, mudo, me deu algum dinheiro que nem fiz questão de conferir. Afinal não era pela grana, só havia aproveitado a ocasião para descolar mais uns trocados dos vaqueiros. Ele alcançou os outros dois enquanto eles a amarravam e amordaçaram. A alguns metros, pude ouvi-lo dizer.


- Essa aí deu muito problema. Não sei se vale a pena levar de volta para as baias - assustei-me com o estrondo seco que ecoou em meio a noite clara, abafando as vozes distantes da cidade. Olhei para trás e vi o corpo da jovem tombar. - Vamos passar algo fresco para os Ghoultrax, que assim vai dar menos trabalho e conseguimos repôr o que gastamos com essa aí.


Um dos vaqueiros aparou a queda e subiu o corpo sem vida para seus ombros. A cidade se alimentava, de um jeito ou de outro, da ingenuidade daqueles que vinham de fora. 


Não era tarde e a próxima esquina estava vívida e pulsante, indiferente ao som do disparo que invadiu a noite. Os primeiros bêbados já vomitavam pelos cantos das ruas, música e gemidos escapavam abafados pelas paredes, celebrando o momento daqueles que ainda estavam vivos. 


No deserto é sempre frio à noite, mas Bangseux existe para aquecer as almas perdidas, para preencher as desilusões com distrações vazias. Não era tarde, mas eu estava muito sóbria para essa hora. Meu deus! Eu precisava muito de um trago agora.

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