Um dos retornos
- Murilo Cesar

- 30 de set. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 17 de dez. de 2025
“Não é a gravidade que nos atrai à Terra... mas o peso do que deixamos para trás.”
Prólogo
No mundo pré-impacto, grandes nações do planeta e suas elites financeiras recrutaram cientistas e militares, unindo recursos para lançar uma expedição permanente que resultou na criação de uma colônia lunar. Com a eminência do impacto, estas mesmas elites financeiras se refugiaram na lua.
Durante quase uma centena de anos, apesar do excesso de contingente, a sociedade lunar prosperou, utilizando recursos lunares e os que foram levados da Terra. No entanto, com o esgotamento de recursos essenciais, a sociedade lunar tomou uma decisão crucial: retornar à Terra, visando uma chance de recomeçar.
O Pouso
A cápsula de pouso L1ND-4, apelidada de "Linda", rompeu as nuvens como um projétil mudo. A blindagem térmica vibrava como se a cápsula tentasse gritar trilhando um magnífico rastro de fogo na atmosfera terrestre. Dentro da cabine ressoavam bipes frenéticos, luzes vermelhas, tremores e três corpos tensionados: Alice, Flávio e Ravi.Amortecido por propulsores que tentavam contrariar a força da gravidade, o impacto ainda fora duro, fazendo com que todos os três respirassem aliviados. Haviam sobrevivido.
Nenhum deles estava realmente preparado para a expedição. Não eram astronautas. Nem soldados. Faziam parte da primeira leva de retorno ao planeta. Condenados, voluntários esquecidos ou gente que ninguém se importaria de perder. Ninguém choraria por eles.
O vidro embaçado da cabine revelava um mundo esquecido, torres retorcidas cobertas de verde, as árvores rasgando concreto, prédios engolidos pela vegetação como se a Terra tentasse esconder em ruínas a vergonha do seu passado. Era bela. E assustadora em sua exuberância.
Estavam vivos, mas estavam prontos?
O Monstro
Ravi e Alice operavam o computador de bordo, calibrando sinais e inserindo códigos de localização para tentar contato com a nave satélite e transmitir as coordenadas do pouso. Era um processo trabalhoso que exigia foco. Flávio vibrava de ansiedade, sem dizer nada, destravou a escotilha, abriu as comportas e pisou no solo terrestre. Retirou o capacete e respirou fundo. Riu. A terra os recebeu de volta, embora eles nunca haviam estado lá.
— É... estamos de volta — murmurou.
O ar era denso, sujo, mas vivo. Muito mais vivo do que o ar asséptico e artificial dos domos de Lunaria. Alice e Ravi o seguiram. Tossiam e riam. Agradeceram.
Eles andaram pelas ruas quebradas sentindo o vento, as folhas da vegetação, os insetos, era impossível ignorar todos os estímulos, parecia um milagre. Caminharam entre carros fossilizados pelo tempo, árvores que rompiam e moldavam janelas e cresciam por dentro das construções, estátuas cobertas de musgo. Não havia outra palavra para expressar o que sentiam senão liberdade.
O planeta os recebia com braços abertos. Não precisavam mais obedecer protocolos, horários, comandos, não estavam passando entre domos de atmosfera artificial. Era um novo mundo. Selvagem, não deles, mas estavam nele.
— Como será viver aqui? — perguntou Alice, olhando uma centopeia que subia um poste de concreto tomado por raízes e folhas, indiferente à ruína.
Ravi sorriu enquanto calibrava o sensor de distância do seu binóculo de exploração, os olhos alternando entre a vegetação e o visor.
— Só sei que nunca mais volto para aquela prisão.
— Você fala como se alguém fosse nos buscar — provocou Flávio, ainda sorrindo e bebendo um gole de água de seu cantil.
— É a nossa chance de… — respondeu Ravi, sua voz se ralentou e foi cortada por um chiado agudo e distante. Ele gritou enquanto ainda observava o céu com seu binóculo
— O que é aquilo?!
Por um segundo, um vulto alado, colossal, cruzou o céu limpo sobre suas cabeças, uma criatura que eles ainda viriam a conhecer como um zoodeorum, afinal , eles mal conheciam os animais além dos que haviam visto em vídeos nos arquivos de Lunaria.
A besta mergulhou com violência. Nas pontas das asas, garras tencionadas miravam o solo em busca de sua presa. Alice rapidamente ergueu sua pistola cinética. O zumbido grave aumentava conforme os disparos se sucediam. Um, dois, três tiros. Eram inúteis, fracos. A fera plumada não teve seu mergulho abalado, com as garras dianteiras jogou seu peso sobre Ravi e o bico curvo ao abrir-se revelou uma série de dentes afiados escondidos, que cravou entre o pescoço e os ombros de Ravi. O grito do companheiro subiu aos céus com o rápido movimento da criatura, que impulsionando-se com as patas traseiras levantou vôo carregando Ravi ainda vivo.
Alice gritou em um misto de raiva e desespero enquanto continuava seus disparos, agora abafados pelo som dos gritos de Ravi.
Flávio correu em vão.
Lá do alto, Ravi gritou até que os gritos viraram urros, e os urros um bucólico silêncio, um vazio. Os disparos de Alice cessaram e ela permaneceu imóvel, arma em punho, olhando o ponto onde Ravi desapareceu. Nada mais caiu do céu e nem se moveu. O céu engoliu o monstro. Assim como Ravi.
Restaram dois.
As Máquinas
Dias se passaram. Encolhidos dentro da cápsula, comiam o mínimo. Dormiam aos turnos. O medo, constante, se tornou parte do ar.
Foi numa noite chuvosa que decidiram se mover. A visibilidade era baixa, e talvez por isso, tiveram coragem. Procuravam abrigo, rotas, talvez respostas. Não podiam permanecer na cápsula para sempre, não havia resgate, não havia contato, não havia nada. Apenas a certeza de que a vida tinha recomeçado ali, na terra selvagem.
Cruzaram os escombros de um antigo observatório. Torres partidas, antenas derrubadas. Então ouviram: sons metálicos, fagulhas elétricas, faíscas, rangidos.
Entre os escombros, autômatos murmuravam preces quebradas.
Fragmentos de código, Palavras partidas, bipes eletrônicos.
“...reparar... sist... aguarde... tocolo... 9...”
Andavam como caçadores atentos observando o cemitério de máquinas que parecia ter se formado recentemente como resultado de um conflito. Algumas delas estavam paradas, olhando para o nada. Outros mutilados. Os olhos de LED piscavam como vaga-lumes doentes.
Flávio se aproximou de um deles. Fascinado. Como uma criança vendo deuses mortos.
“Deixa isso, Flávio”, disse Alice, tensa
Mas ele foi mais perto. Pisou num piso falso. Gritou.
A estrutura frágil cedeu. Desabou junto com os destroços, Flávio caiu uns seis metros, entre placas de metal e concreto desfeito. Tentou se mexer. O braço preso entre uma viga e o chão. As pernas parcialmente soterradas.
— Me ajuda! Alice! Me tira daqui!”
— Não sinto minhas pernas.. Droga! – Proferiu enquanto tentava erguer a cabeça com dificuldade para conferir sua própria situação.
Alice tentou. Forçou vigas, escavou, tentou de tudo, mas nada funcionava. Flávio sangrava e tremia enquanto Alice buscava por algum tipo de ferramenta que pudesse ajudar, se falaram por horas pelo comunicador. Prometeram coisas. Riram até chorar. Falaram da vida que nunca tiveram.
“Finalmente eu tive uma segunda chance... uma vida de verdade. Com terra. Com chuva.”
Descrevia e contemplava tudo o que havia presenciado no planeta, Alice ouviu em silêncio, chorando. Até que não falou mais.
Restou uma.
As Pessoas
Sozinha e faminta, Alice caminhava entre as ruínas. Cruzou zonas mortas, bairros engolidos pelo tempo, onde o silêncio parecia mais denso que o ar. A cápsula, agora apenas uma lembrança ao olhar para o horizonte. Em seu corpo, carregava o peso dos dois que ficaram.
Avançava com cuidado, mas ainda assim tropeçava. Era desastrada, mesmo atenta. Caiu mais de uma vez. sentiu o impacto no corpo, trincos nos músculos, torceu o pulso, mordeu a dor. O frio mordia de volta. Só não cedeu porque o traje era resistente, projetado para muito menos do que aquilo, mas ainda assim suficiente.
E, em silêncio, agradeceu por isso.
Quando chegou no topo de uma colina, viu bandeiras. Rasgadas, multicoloridas, dançando no vento ácido.
Pessoas.
Viam-se como sombras sobre motocicletas e bestas, com feras acorrentadas, que avançavam em manada. No punhos armas improvisadas, pintados e sucateados, vestidos de couro e metal como selvagens. Nativos sob uma bandeira riscada de oito pontas cortando um círculo.
Alice cambaleou. Quase caiu tentando puxar sua mochila.
Com esforço, ergueu o braço. Ativou o sinalizador. Uma fumaça densa, roxa, subiu em espiral. Ela tombou.
Foi recolhida por eles, mal respirava. Quando abriu os olhos, uma cidade murada. Revitalizada, ou quase... Estava salva? Ou realocada?
Mais cápsulas cortaram o céu momentos depois. Outros enviados de Lunaria, caíram ao longe, mais longe do que era possível chegar a pé.








