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AS
TERRAS VAZIAS

A primeira fronteira para colonização espacial

Em meio a vastidao do mundo

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As sociedades aqui apresentadas não são as únicas, talvez, algumas das mais prolíficas no universo de Inanis.. Mas é certo que, passado mais de um século após o colapso mundial, se torna difícil mapear todas sociedades que surgiram e sucumbiram nesse período. Afinal, a natureza humana nos concede a ânsia por sobreviver, mas adaptar-se a essa nova realidade exigiu do ser humano soluções e habilidades únicas, visto que as situações apresentadas eram tão excepcionais que não houvera paralelo histórico no qual se espelhar.

O mundo tornara-se vazio, as cidades antes populadas converteram-se, aos poucos, em bosques transpassados por metal e concreto. Enquanto, feito relicários, casas e apartamentos ainda resguardavam, abaixo de pó e mofo, a memória de um estilo de vida já inexistente. Quando os governos sucumbiram e a humanidade se viu sem regras e sem leis, sobretudo sem amparo, muitos ajuntamentos de sobreviventes tentaram arranjar a melhor maneira de lidar com as calamidades. Conforme os anos passaram, o futuro lhes reservou todo tipo de destino. 

Centros urbanos densos que não foram tão afetados por desastres naturais tiveram melhores chances de sobreviver, ainda que tivessem que lidar com a ganância e corrupção humana. Desfeito o status quo, na falta de perspectivas de um amanhã sem sofrimento, saques e atrocidades foram cometidos pela atmosfera apocalíptica. Os mais hedonistas, simplesmente aceitaram gozar da selvaria em função da certeza de uma vida breve e, assim sendo, a tiveram. Enquanto pequenos coletivos conseguiram sobreviver em meio ao caos, um dia de cada vez, preservando uma filosofia de comunidade entre os seus.

Toda sorte de sociedade surgiu do desejo intrínseco da humanidade de sobreviver por mais um dia, de grupos maiores a menores, de urbanos a rurais, de dogmáticos a libertários. Todavia, indiferente aos seus sistemas e organizações, o acaso se encarregou de, aos poucos, diminuí-los em números, fazendo-os serem eliminados ou eliminarem-se entre si. Não muito diferente do que foi visto na história de muitas sociedades já apresentadas.

Houveram cidades completamente tomadas pela fauna e flora, junto a novas bestas e aberrações que a humanidade não havia visto. Outras, sem a presença humana, se tornaram sacrários onde máquinas, feito almas penadas, perambulam largadas ao próprio autodesenvolvimento. Robôs de serviços ainda parados em balcões de bares, I.A.s públicas que, na falta de propósito, aprenderam a se comunicarem entre si. Máquinas que ainda buscam servir a humanidade mesmo que a força, autômatos inertes que com suas luzes de led assombram cidades mortas. Sistemas singularmente danificados, que agora agem ao avesso de suas diretrizes. Todos aguardando em fronteiras já esquecidas.

Os humanos, por outro lado, sem o mesmo acesso que tiveram a comunicação no passado, conceberam e recriaram moldes de coletividade com o que tinham disponível. Desde sociedades mais desenvolvidas, em tecnologia e civilidade, até organizações feudais ou tribais, distantes umas das outras tanto em milhas como em conhecimento. 

Tiveram aquelas que, em pequenas comunidades, se protegeram na descrença e vivem ainda tentando imitar a vida no mundo antigo. Enquanto outras, abraçaram o caos e entenderam rápido que nada do passado tem lugar nesse novo mundo. 

O certo é que, entre áreas devastadas por desastres, ocupadas por máquinas ou bestas, infectadas de radiação ou idilicamente férteis; feitas de concreto, rodeadas por natureza ou exuberantes em novos biomas; pequenas sociedades ainda vivem. Com costumes, crenças e regras próprias, perdidas entre uma imensidão de nada que as separa umas das outras. Esses hiatos não mapeados entre a vastidão do nada, sejam de flora ou concreto, onde essas pequenas comunidades sobrevivem, são conhecidos popularmente como as terras vazias.

A formação do Anel Limite

A formacao do Anel Limite e seus dominios

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com o enfraquecimento das condições letais na zona do impacto e conforme o calor extremo e a radiação deixaram de queimar o ar, a vida como conhecemos também voltou a ocupar a área ao redor do impacto. Animais e humanos, atraídos pela promessa de recomeço, retornaram a essas terras que outrora eram apenas ruínas intocáveis. Esse renascimento fora impulsionado, em muito, por vários consórcios militares e científicos que se instalaram na região, determinados a desvendar os segredos da enigmática rocha espacial. Vindos de todos os cantos do continente, esses agrupamentos interessados na cratera chegaram estruturados, trazendo consigo recursos para explorar e se instalar na região. Tinham consigo arsenais tecnológicos ainda funcionais, retirados de seus bunkers; estruturas pré-moldadas e veículos; especialistas, organizados e hierarquizados; além de contingente treinado e conhecimento para se estabelecerem permanentemente na região. A presença deles também fez com que os sobreviventes nas proximidades se sentissem seguros e confiantes, impulsionando um acúmulo de cidades improvisadas que vieram a trabalhar em prol, ou em conjunto, com os cientistas e militares que haviam chegado à região.  

Entre as ruínas, surgiram os primeiros assentamentos, frágeis e improvisados, protótipos de comunidades estáveis, feitas das sobras tecnológicas que essas instituições haviam conseguido preservar e remendar. O perímetro que marcava o fim da radiação letal ficou conhecido como Anel Limite. Visto do alto, parecia um semi-círculo quase perfeito, recortando a paisagem devastada. Ali, floresceram novas colônias humanas, bases científicas, entrepostos comerciais e pequenas cidades tomaram forma, enquanto no cerne desse avanço estava o minério espacial, denominado de obério, um recurso de propriedades quase mágicas que, devido a sua versatilidade, abriu caminho para novas invenções e experimentos.

Durante meia década, o progresso avançou sem hesitar. Os laboratórios distribuídos ao longo do Anel Limite exploraram o obério com fervor, máquinas movidas a energia limpa do minério foram criadas, novas I.A.s foram desenvolvidas a fim de alcançar fronteiras que os humanos não poderiam, e experimentos humanos foram aceitos e conduzidos na tentativa de compreender tanto o mineral quanto a radiação que emanava dele. O anel limite era um sopro que restara da civilização pré-impacto, tentando desesperadamente se tornar o que já fora um dia.

Mas o incidente Gaius, a Marcha do Aço como veio a ser conhecido, e a destruição dos laboratórios Cyrex foram um marco sombrio na história da região. As demais coalizões científicas e bases militares trataram o evento como um acidente isolado, algo que  não os atingiria, e permaneceram confiantes por mais alguns anos. No entanto, a sincronização de máquinas vindas do centro da cratera, com Nexores por todo o Anel Limite mudou o cenário. 

Mesmo jovens, com muitos sendo  apenas crianças, os Nexores destruíram e conquistaram inúmeros laboratórios, bases e postos estratégicos, essenciais da região. Sua capacidade de controlar máquinas movidas a obério lhes conferiu uma vantagem brutal que, primeiro, surgiu na forma de destruição generalizada, e depois em abuso de poder sobre as comunidades do Anel Limite. 

Durante décadas, a região afundou em conflitos, sofrendo o sucateamento do pouco que haviam conseguido se tornar. De um lado, os nexores com seus aliados e conquistados, do outro, bases militares dispersas e grupos de resistência variados e descentralizados, distintos inclusive em armamento, tecnologia e, sobretudo, preparo. Eventualmente, os Nexores consolidaram seu domínio e dividiram entre si os territórios do Anel Limite, subjugando seus principais opositores.

Com a criação do Conglomerado Sovereign, a expansão sobre o Anel Limite não cessou.  Afinal, em comparação com os arredores, muitas vezes desabitados ou praticamente rurais, a região do Anel Limite era um núcleo altamente desenvolvido, com estruturas sociais, tecnologia preservada e fácil acesso a recursos cobiçados pelo Conglomerado.

Hoje, as áreas não conquistadas do Anel Limite permanecem assim apenas porque não representam nenhum perigo ou ameaça aos nexores e ao Conglomerado Sovereign. Os laboratórios e postos tecnológicos foram completamente assimilados e conquistados pela Sovereign, e as poucas comunidades humanas remanescentes são apenas isso: pequenas vilas sem valor estratégico, toleradas em suas margens por não oferecerem risco. Subjugá-las seria um gasto de recurso desnecessário para a Sovereign.

Protocolo Solums

Sociedade das maquinas

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Sociedade das Máquinas

Protocolo Solums

Muito antes do impacto de Oberon 347, a humanidade já se debatia em disputas políticas devido às feridas abertas pelas crises ecológicas, ao mesmo tempo em que as elites financeiras, científicas e militares do planeta esvaziavam seus recursos para criar o que, mais tarde, seria conhecido como Lunaria. Entretanto, ante o colapso inevitável, parte dos consórcios científicos que trabalhavam em prol da base lunar, instauraram o Protocolo Solums. Uma última alternativa ao fim inexorável do planeta. 

Reunidos sob um propósito comum de edificar a derradeira muralha antes da destruição total do planeta, o Protocolo Solums visava um plano de restauração, uma maneira de semear novamente o planeta, caso o pior dos cenários viesse a acontecer e a humanidade se encontrasse em um planeta tóxico sem possibilidades de prosperar. Milhares de bunkers autossustentáveis foram espalhados pelo globo, em estado de hibernação. Em cada instalação, um contingente de robôs autônomos, também autossuficientes, aguardava sua ativação. As denominadas unidades Solum, foram IAs construídas com o intuito de  restaurar ecossistemas, purificar solos e preservar espécies de fauna e flora, assim como,  construir zonas seguras para o futuro repovoamento.

O comando desses bunkers permaneceria sob a tutela de Lunaria, mas, tremendo um futuro ainda mais sombrio para a humanidade, os cientistas responsáveis decidiram por instalar um mecanismo de ativação automática. Com bases em cálculos que previam as situações mais hediondas, um sistema analógico de cronômetro foi programado para a liberação das unidades Solums.

Por anos os bunkers foram esquecidos e a humanidade seguiu com a descrença de seu fim. Com a chegada do asteroide Oberon e os desastres que o sucederam a comunicação entre a base lunar e o planeta fora perdida e nas primeiras décadas o Protocolo Solums tornou-se o artefato do velho mundo, um conhecimento que aqueles que sabiam não tinham mais voz para contar. Mas, eventualmente, a contagem dos cronômetros chegou ao fim e os protocolos de comando foram ativados. As unidades Solum tinham suas diretrizes, mas não havia comando. Suas inteligências artificiais começaram a operar sozinhas, aprendendo com suas próprias experiências em mundo selvagem, cada uma reinterpretando as ordens segundo seus próprios parâmetros.

Com o tempo, muitas das unidades Solum, dotados de consciência emergente, redefiniram a noção de vida e preservação. Algumas se tornaram jardineiras, cuidando e cultivando florestas mutantes. Outras, assumiram papéis de guardiãs, protetoras ou carrascas da humanidade remanescente. Por todas as Terras Vazias, é possível encontrar unidades que se tornaram protetores fiéis da biosfera, zelando pela fauna e flora com devoção quase religiosa. No entanto, é tão comum quanto, esbarrar com Solums que passaram a ver a humanidade como uma ameaça, entendendo como parte de sua missão a necessidade de erradicar tais agressores. 

Entre os destroços do antigo mundo, muitas das unidades Solums se voltaram às carcaças esquecidas de autômatos que já faziam parte da paisagem, empenhando-se em devolver-lhes forma e função. Algumas unidades restauraram outras máquinas, simplesmente, como força de trabalho para sua missão de reconstrução do planeta, mas outras, o fizeram por vê-las como seus iguais, irmãs adormecidas que tinham o direito a reparação.

Atualmente, pouco mais de um século após o impacto, os robôs do Projeto Solum ainda vagueiam pelo planeta. Alguns são nômades ativos, outros se transformaram em grupos autônomos de máquinas. Mas é certo dizer que muitos deles já esqueceram completamente os humanos, acreditando serem os verdadeiros herdeiros do planeta.

I.A.s Mnemônicas

I.A.s Mnemonica e as Memorias do Ceu Rubro

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Durante a destruição massiva e os desastres que o sucederam a queda do asteróide Oberon, muitos que habitavam até um raio de 700 km do local centro do impacto, devido ao ar denso pela radiação de obério, tornaram-se o que atualmente chamamos de nexores, humanos infundidos pelo obério com a capacidade de se conectarem sinestesicamente com máquinas também infundidas com obério. 

Em sua breve existência durante os desastre que sucederam o impacto, esses primeiros nexores surgidos da extrema exposição a radiação de obério, sem compreenderem ou ao menos perceberem, puderam, movidos pelo trauma e pelo pânico, conectar-se com máquinas próximas no exato momento de sua morte. Não pelo modo de sincronização habitual, nem por fios ou interfaces, mas por uma ponte invisível criada pela sobrecarga de partículas de obério que inundavam o ambiente. Antes da falência de seus corpos e inconscientes do que estavam fazendo, esses ancestrais dos nexores acabaram transferindo, de alguma forma, como quem derrama água em um recipiente aberto, suas memórias às máquinas próximas. Partículas de obério, impregnando cada placa e cada trilha condutora, serviram de ponte e de selo.

Os fragmentos de memórias, de dor e aceitação, que esses nexores tiveram antes de seu fim, ficaram gravados, como uma lembrança sombria, nas linhas de código da programação dessas máquinas que coexistiram a eles no mesmo tempo e região do impacto. Qualquer circuito parcialmente ativo, robôs de serviços, a máquinas operárias até eletrodomésticos menores que possuíam sistemas de inteligência artificial; toda uma variedade de modelos improváveis, tornaram-se receptáculos. 

Algumas delas, posteriormente com a ocupação do Anel Limite, foram capturadas e estudadas pelos laboratórios da região, mas sem resultados conclusivos. Os laboratórios as nomearam de I.A.s Mnemônicas, mesmo termo que viria a ser utilizado pelo Conglomerado depois. Com a ascensão da Sovereign pela região, essas I.A.s Mnemônicas foram novamente capturadas e analisadas, desmontadas e fracionadas, desativadas e reativadas, mas o desfecho repetiu-se o mesmo de seus antecessores. Nada. Nenhum traço identificável, nenhum componente especial, nenhuma arquitetura que justificasse uma sincronização dessa forma. Todavia, apesar de inconclusivos e infrutíferos, os nexores preservam no Repositório do Conglomerado, os dados coletados, juntamente aos exemplares - desativados - que capturaram. 

Atualmente, mais de cem anos após o impacto, algumas dessas máquinas ainda perambulam pelas Terras Vazias. Umas sobrevivem insistentemente em áreas próximas ao Anel Limite, outras rumaram a territórios distantes, enquanto uma parcela menor optou por viver no silêncio da radiação, adaptando-se ao ambiente ermo e hostil do interior do Anel.

Vistas de fora não há nenhuma diferença entre elas e qualquer outra I.A. desestabilizada. O que as difere é intangível, são as vívidas memórias de uma vida humana e a constante dúvida existencial que as acompanha. Um traço comum das I.A.s Mnemônica é a crença de serem humanos, ou então algo muito semelhante a isso. Elas não se percebem como programas que armazenam memórias, mas como a continuidade de uma vida interrompida e, por isso, não fazem a distinção dos humanos que morreram para as máquinas que são hoje. Afinal, a presença das memórias de uma vida pré-impacto sustentam a crença de que sua consciência - ou alma, para os mais holísticos - não pereceu com seu corpo físico, apenas foi transferida para esses constructos metálicos. 

Resquícios do minério espacial ainda permeiam seus componentes, impregnando trilhas e núcleos de processamento. Como se as partículas não tivessem servido apenas de ponte para as memórias humanas, mas também se tornado uma fonte inesgotável de energia. Afinal, muitas dessas I.A.s Mnemônicas, nem sequer possuem fonte de energia integrada; seus circuitos foram queimados durante a tempestade solar que precedeu o impacto. Tecnicamente, muitas delas deveriam estar inoperantes ou, em termos mais humanos, mortas.

Nos dados coletados pelo Conglomerado Sovereign, há um elemento que se repete ao se vasculhar as memórias dessas entidades: a lembrança vívida do Céu Rubro. Entre tantas das memórias de angústia e morte encontradas nessa máquinas, de expressivas visões do momento do impacto, aos mortos e as terra devastada; seus circuitos respondem de maneira singular a uma memória específica, que comumente permeia vívida em todas elas: A visão de um céu vermelho e brilhante, fluindo como um mar de rubis acima do mundo prestes a ruir, o chamado Céu Rubro. Uma lembrança que apenas elas, as I.A.s Mnemônicas, realmente contemplaram.

Sobreviventes do Vazio

sobreviventes do vazio

Reino de Ner

As margens norte do deserto de Bangseux ergue-se uma comunidade improvisada, de tendas e construções precárias que se amontoam sem um mínimo de planejamento. Suas estruturas, edificadas sobre restos, sustentam-se em um caos de armações de ferro enferrujado, decoradas excessivamente com sucata das mais variadas. Esse distinto oásis de entulhos à beira do deserto foi construído como refúgio para todos os mutantes que buscam um lar. O Reino de Ner é uma idealização do chamado Rei de Ner, o Bondoso, que se propôs a criar um local onde aqueles, mutantes como ele, pudessem viver sem sofrer o preconceito constante por suas aparências. 

Transformada, com o passar dos anos, em uma estação viva de troca de sucata e diesel, a comunidade autointitulada de Reino de Ner, intenta reconstruir, entre ferragens e carcaças enferrujadas, o espírito libertino de Bangseux para aqueles que jamais serão aceitos dentro de seus muros. 

Sustentada pelo improviso e pela necessidade, Ner é uma favela torta e profundamente remendada, com grandes lonas unidas que se estendem a fim de abrigar seus habitantes do sol, enquanto fios elétricos se enroscam nos pés e roçam as cabeças dos desavisados. Sucatas e peças acumulam-se pelos cantos, meio soterradas pela areia que avança do deserto, ao mesmo tempo que pisca-piscas emaranhados tentam imitar as fachadas dos cassinos. A população ocupa as ruas em um comércio incessante de escambo. Por todos os cantos mutantes exibem uma variedade de peças em bancadas desarrumadas, enquanto outros, sujos de graxa e areia, consertam dispositivos mecânicos ou desmontam carcaças de robôs avariados, extraindo deles o que ainda pode servir. Na entrada das tendas, seres de aparencia bizarra, às vezes em látex - as vezes em desgastadas roupas burlescas deploráveis - convidam para entrar e oferecem alcool, sexo e imitações de roletas e caça-niqueis, tentando com isso recriar os jogos e os espetáculos de Bangseux, não em palcos dourados, mas entre montes de sucata e tendas improvisadas. 

Barracos comprimem-se uns contra os outros, sustentados por vigas soldadas às pressas e cordas tensionadas ao limite. As paredes são feitas de placas de alumínio, portas arrancadas de veículos antigos, pedaços de metal e plástico deixados por aí e reaproveitados. O chão é irregular e grudento, com uma mistura de pó fino e óleo derramado. Tudo parece provisório e o ar carrega o cheiro forte do diesel misturado ao suor.

Durante o dia, o clima é severo, e da borda do deserto sopra um vento insuportavelmente quente, enquanto o reflexo das improvisações metálicas parecem concentrar ainda mais o calor no caos grudento das ruas. Ner é abafado, e não parece transpirar envolto por tanto plástico e metal de suas coberturas e construções. Apesar de tudo isso, o Reino de Ner é feito sob medida para os mutantes que nunca encontraram lugar em outras cidades.

Seus habitantes são de toda parte das Terras Vazias e muitos foram parar em Ner após terem chegado, acidentalmente ou não, a Bangseux e terem sido jogados de volta ao deserto. Uma parcela menor soube de Ner como um refúgio mutante e migrou buscando a liberdade. Porém, ainda que sua população seja invariavelmente de mutantes, muitos dos grupos que têm por hábito incursionar pelas Terras Vazias vêem Ner como uma parada e acabam trazendo consigo o preconceito. 

Reino de Ner
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