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BANGSEUX

A submissão aos prazeres da carne

Precedentes da barbarie

PRECEDENTES DA BARBARIE

Um dos principais centros turísticos para jovens e magnatas que buscavam o êxtase e a desordem da vida noturna, Bangseux foi uma grande metrópole do entretenimento que cresceu rápida e desordenadamente. Vendendo-se através do espetáculo de uma vida hedonista para aqueles dispostos a pagar, a cidade era formada por uma paisagem urbana caótica que oferecia, em uma poluição de placas e outdoors, sexo, jogos de azar e espetáculos. Construída com luzes de neon, fachadas e arquitetura exuberantes e vitrines com toda sorte de atrações, Bangseux situava-se longe da área de impacto e das regiões afetadas pelos desastres climáticos. Porém, devido ao colapso dos meios de comunicação, encontrou sua ruína vinda do mesmo ponto que a salvara da destruição.

Localizada em meio a um deserto, a cidade de Bangseux viu-se ilhada em seus primeiros longos anos. Sem reservas e distribuição suficiente de água e alimentos, lentamente a cidade sucumbiu à desordem que fazia parte de sua essência. Sem suprimentos, diante do fim e habitada por aqueles que já a haviam procurado em busca de satisfazer seus impulsos carnais e hedonistas, Bangseux rendeu-se rápido à barbárie sem consequências.

O caos tornou-se soberano. Sem leis, entre aqueles que não conseguiram sair ou quiseram ficar, as ruas de Bangseux se tornaram palco de todo tipo de atrocidades e somente os mais selvagens e mentalmente instáveis conseguiram sobreviver.

Os anos sem lei

OS ANOS SEM LEI

Posições de poder e dinheiro tombaram diante o pandemônio de Bangseux, afinal os habitantes não respeitavam nada além da força e do desejo. O esplendor dos cassinos, outrora símbolo de opulência, tornara-se somente um teto para a miséria violenta das ruas e, com a ausência de leis, não havia beco ou abrigo que fosse seguro dentro da cidade. Partir de Bangseux era uma opção tão incerta quanto ficar, de um lado a brutalidade árida do deserto, do outro a crueldade humana em seu estado mais bruto.

Os mais desumanos, sem pudor para selvageria, imperavam suas vontades pelo vigor e violência, enquanto aqueles, sem força física ou dotados de alguma moral - ainda que frequentemente roubados e subjugados - só conseguiam encontrar sobrevivência através da troca ou do controle de recursos. Com o passar dos anos, conforme a população consumia a si mesma e passava a assimilar as atrocidades como parte do status quo; entre os sobreviventes curtidos pela barbárie, foi inevitável o surgimento de alianças, onde o pacto era mais vantajoso do que a dizimação mútua.

Com o intuito de usufruírem de um mesmo recurso, essas alianças entre sobreviventes iniciaram na tentativa de manter o controle ou proteger um bem valioso, fosse este para consumo ou escambo. 

Gangues foram forjadas por toda a cidade, divididas inicialmente em pequenos domínios, como um beco, uma rua ou uma construção. Algumas destas controlavam estoques, principalmente de comida, outras um gerador ou dispositivos tecnológicos ainda funcionais; muitas ofereciam serviços, enquanto outras produziam artigos e bens de consumo. Mercados sombrios emergiram entre as gangues e os sobreviventes, abrindo espaço também para que o monopólio fosse almejado, afinal, a população não buscava somente o prazer do consumo com drogas e sexo, mas o êxtase do poder. 

Os conflitos nas ruas eram ainda mais constantes, uma vez que agora inúmeras gangues brigavam pelo controle de recursos escassos. Todavia, feito um movimento, que surge simultaneamente em diferentes locais, em meio aos conflitos e a matança diária, as gangues rivais passaram a ver valor não somente em bens e serviços, mas na vida de seus inimigos. E assim, o que era somente um costume de uma sociedade distorcida, tornou-se uma prática estruturada de seu próprio mercado. Dando início a um comércio sombrio de vidas.

A escravidão se tornou um meio e os membros de gangues rivais capturados eram submetidos aos mais diversos fins: entre trabalho forçado, comércio sexual, luta em arenas e, inclusive, devido à escassez de alimento, feito gado para o consumo de carne. Para uma sociedade isolada, com falta de alimento e perdida na própria brutalidade, o canibalismo não foi uma linha difícil de se cruzar.

A ordem ao caos

A ORDEM AO CAOS

A hostilidade dos habitantes de Bangseux era o que garantia sua sobrevivência. Estar sempre em estado de alerta não era somente uma virtude, mas uma necessidade nas ruas poeirentas da cidade. E quando os primeiros drones de reconhecimento do Anel Limite cruzaram os céus escaldantes do deserto, sua presença não passou despercebida. Os mais jovens viram o ser metálico com curiosidade, enquanto alguns poucos ainda se lembravam o que eram aquelas máquinas e se surpreenderam ao vê-las funcionando. A silhuetas refletoras que passavam ligeiras pelo horizonte amarelo eram uma nova esperança para os habitantes de Bangseux, uma oportunidade de contato e com ela, uma infinidade de quereres: desde fugir da cidade, até conseguir recursos, estabelecer uma relação de troca e fortalecer o domínio de sua gangue. 

Toda a situação se desenrolou rápido e, como de praxe em Bangseux, a força prevaleceu nessa primeira etapa. Após os drones serem vistos, diversos grupos de sobreviventes se organizaram e partiram ao deserto para seguir as máquinas. Eles alternavam entre manter distância dos drones para não serem percebidos e eliminarem-se entre si. Até que finalmente, um grupo conseguiu alcançar um dos drones próximo ao solo e o abateram. A máquina foi arrastada de volta a cidade e ficou sob o domínio da gangue que a derrubara, como uma caça valiosa, fosse como recurso ou troféu. Curiosos pelo ser metálico, aqueles que o abateram e seus confrades, buscaram entender como aquilo funcionava e de onde vinha. Bateram em sua carcaça, puxaram seus fios para fora, chamaram em frente as lentes, repetindo o ritual de degradação do drone por dias, até que inesperadamente a máquina falou. 

No Anel Limite, recebido o sinal de drone abatido, um operador ao checar as câmeras, pode ver em seus monitores um lugar escuro, com um povo de pele curtida pelo sol e pela desnutrição, esbravejando e golpeando como selvagens. Não era inédito que os drones captassem imagens de sobreviventes, mas era incomum que tentassem fazer contato, ainda mais de maneira tão direta. O incidente foi relatado a Bohdan Kuzma, o cientista responsável pela divisão de drones de reconhecimento do laboratório Cyrex, que viu no ocorrido a possibilidade de expandir o poderio para terras mais distantes e aumentar sua influência dentro, não só do laboratório Cyrex, mas de todas as organizações do Anel Limite. 

A conversa se estabeleceu como qualquer outra expansão cultural histórica, com o intuito de colonizar e tomar posse de quais fossem os recursos que haviam possibilitado a sobrevivência daquelas pessoas em meio a um deserto. Kuzma, o responsável pela divisão de drones, se posicionou soberano, oferecendo as dádivas da tecnologia como um engodo pacífico para, aos poucos,  conquistar. Bangseux, por outro lado, não tinha nada e precisava de muito. Demorou pouco para que os os dois lados percebessem que cidade dos cassinos e night clubs tinha uma matéria prima valiosa para o laboratório Cyrex: cobaias humanas das quais ninguém daria falta.

Com a ajuda do laboratório, a alta tecnologia foi restabelecida e instaurada em Bangseux. Geradores foram construídos e a energia nos prédios e cassinos foi recuperada. Autômatos e máquinas velhas foram consertadas e o novo ambiente com novos recursos favoreceram o crescimento de diversas gangues que puderam se expandir na especialização dos recursos que já possuíam antes. Os bordéis deixaram de ser cômodos escuros e sujos com escravos acorrentados, o jogo e o entretenimento foram restabelecidos em seu glamour e a produção de bebidas e drogas sintéticas foi minimamente mecanizada, aumentando sua produção. Todavia a instabilidade e barbárie das ruas mantinha-se soberana e generalizada, especialmente com a constante remessa de armamentos de segunda mão, provinda dos arsenais do Anel Limite, que chegavam às mão dos habitantes. 

A vida nunca tivera tanto valor. Pessoas eram sequestradas em plena luz do dia e levadas imediatamente para serem trocadas. Qualquer momento de distração era suficiente para um indivíduo ser capturado por uma gangue rival e vendido aos laboratórios por recursos. Máquinas operadas remotamente faziam o translado de cobaias de Bangseux ao Anel Limite e retornavam carregadas de armas e maquinários. 

Essa incessante demanda possibilitou que Bodhan Kuzma construísse o primeiro monopólio de Bangseux. Pelos laboratórios de pesquisa do Anel Limite ele negociava o mercado de cobaias vindas de Bangseux, enquanto a população  da cidade o procurava em busca de suas próprias demandas, fossem elas comida, insumos, armas ou tecnologia. O conflito entre gangues voltou fortemente durante esse período, dizimando diversas organizações menores. As gangues que conseguiram prosperar caçavam as outras com interesses cruzados, ao mesmo tempo que atacavam em busca de capturar os membros rivais para serem vendidos como cobaias, também visavam aumentar seus recursos ao usurpar a gangue rival. 

A euforia das negociações começou a minguar quando, novamente, os habitantes de Bangseux se deram conta de que as relações e estruturas na cidade beiravam o insustentável. O conflito se tornava cada vez mais intenso entre as gangues, enquanto se formava uma falta de contingente de escravos para executarem o trabalho que eles não queriam fazer. Contudo a dissolução do laboratório Cyrex e a ascensão de nexores por todo o Anel Limite foram o ponto crucial para que uma nova organização nascesse do caos.

O Doutor e as IAs desestbilizadas
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O DOUTOR E AS I.A.S DESESTABILIZADAS

Com a destruição do laboratório Cyrex no incidente Gaius e diante a ameaça emergente de máquinas por todo o Anel Limite, Bodhan Kuzma, que ambicionava poder, decidiu que sua melhor estratégia seria estabelecer-se permanentemente em Bangseux. Onde sua influência e poder já estabelecidos, não somente lhe conferiam facilidades e conforto, mas lhe concediam um ambiente fértil para a construção de seu próprio império.

De valores tão distorcidos quanto os da própria cidade, Kuzma se estabeleceu em Bangseux com o objetivo de criar sua própria organização, na qual poderia, não só satisfazer sua ânsia por poder, como teria a possibilidade de conduzir seus próprios experimentos em máquinas e humanos, sem a necessidade de se reportar a ninguém. 

Instruído tanto na mecânica robótica quanto na medicina, Kuzma chegava a Bangseux oferecendo-lhes um serviço escasso. Dotado de conhecimento e recursos para prestar assistência aos feridos, inserir implantes cibernéticos e reparar autômatos, armas e toda sorte de máquinas, Kuzma iniciava sua gangue instruindo adeptos ao seu ofício, gerando, através de doutrinação, uma corja de seguidores que assentavam a base de sua recém formada Kuzmacracia. Fazendo-se com isso, mais uma vez, indispensável para o funcionamento da cidade. 

Contudo, apesar de sua crescente influência, sua força era limitada. Kuzma desejava poder rápido, afinal esta era a única forma de sobreviver por um longo tempo em Bangseux. Dispondo de poucos integrantes e sem conseguir expandir o número de aprendizes, devido às demandas com o ensino dos mesmos, assim como, com os serviços que sua gangue oferecia, Kuzma desenvolveu um novo recurso. Com o objetivo de garantir sua segurança diante das outras gangues consolidadas sobre a selvageria, ele criou um mecanismo de múltiplas possibilidades, os sistemas que, mais tarde, viriam a ser conhecidos como Bottons.

Utilizando-se dos estudos sobre I.A.s desestabilizadas, feitos durante os primeiros anos do laboratório Cyrex, Kuzma expôs os restos de inteligências artificiais disponíveis em Bangseux a crueldade desmedida das ruas da cidade, a fim de criar seu próprio exército, que lhe protegeria da violência física daqueles que almejavam dominar seus artíficios.

Os experimentos com I.A.s desestabilizadas para autodesenvolvimento foram realizados a maneira brutal de Bangseux. Em seus códigos primários foram adicionados a obediência cega aos seus mestres, inserindo-as nas mais diversas carcaças de robôs de serviço. Aqueles com os corpos danificados, foram minimamente restaurados e improvisados, de maneira que a selvageria urbana de Bangseux não oferecesse dano fatal aos seus componentes. Com isso foram lançados às ruas da cidade à própria sorte, onde a crueldade e a insanidade eram norma da população.

Expostas à brutalidade e ao caos que permeavam as ruas, essas I.A.s eram monitoradas pelos Kuzmacratas, a fim de que nenhuma avaria grave fosse causada a seus sistemas centrais. No entanto, ao que não se referia a seus sistemas essenciais, elas foram abandonadas a qualquer tipo de abuso. Fora deixado que elas se autodesenvolvessem sob as condições extremas da cidade, aprendendo com a violência e o sadismo que presenciavam e que lhes era infligido. 

Ao final de seu ciclo de aprendizado brutal, os robôs eram recolhidos, reparados e remendados com o que estivesse ao alcance, além de equipados com armas de alto calibre, para que por fim pudesse servir ao seu propósito. Kuzma havia  sido bem sucedido, pois suas criações aprenderam a crueldade humana, aprimorando seus métodos de tortura e destruição, tornando-se, a cada moléstia, mais atrozes e eficientes. Algumas dessas I.A.s, especialmente aquelas feitas de restos de robôs sexuais, acabaram misturando em seus dados a barbárie, o sadismo e a sedução, criando uma combinação aterradora de perversidade sádica e violência.

Destruindo qualquer intenção de ataque a sua gangue e demonstrando, com maestria, o verdadeiro alcance de sua habilidade, Kuzma revelou que, apesar de não possuir força bruta, sabia jogar o jogo de Bangseux. Garantindo assim a Kuzmacrata como uma força  influente na cidade e que não podia ser ignorada. 

Após estabelecer seu domínio, Kuzma se ergueu como a única organização capaz de criar e reparar mecanismos, transformando suas invenções em uma mercadoria valiosa, que podia ser vendida para as gangues mais influentes, para serem usadas desde como recurso na captura de escravos, até na dizimação mútua de seus concorrentes.

Em um mercado sombrio e sedento por caos, a Kuzmacrata consolidou-se oferecendo seus robôs e tecnologias como instrumentos de dominação, manipulação e destruição, alimentando a violência que já consumia Bangseux. Cada venda fortalecia a rede de influência de Kuzma, transformando-o n’O Doutor de Bangseux, cujo império se expandia silenciosamente, alimentado pelo medo e pela sede de poder de seus clientes. Assim, Kuzma atendia sua própria fome de poder, enquanto nutria o caos de violência e controle na cidade, tornando a Kuzmacrata uma parte essencial na intrincada teia de desejo e violência que estrutura Bangseux.

ALIANÇAS A CONTRAGOSTO

Aliança a contragosto

Bangseux sempre fora estruturada nos alicerces do individualismo, buscando no ego apenas o prazer e a satisfação imediata e individual. A ausência de propósito e a busca por prazer de seus habitantes era inverso ao esforço de manter a cidade funcional. Sua solução sempre fora terceirizar através do trabalho forçado para tornar a vida pós colapso, não só um inferno mais tolerável, mas, com a ausência de leis, a realização dos desejos mais sombrios de seus habitantes. Sem os recursos do Anel Limite e a insustentável falta de contingente para trabalho escravo,  as gangues de Bangseux precisaram se reorganizar.

Muitas das gangues menores foram absorvidas por organizações maiores, como forma de sobrevivência mútua. Enquanto, aos poucos, foram criados grupos de ataque, iniciando-se a prática de aventurarem-se para além das fronteiras da cidade, no deserto.

Munidos agora de tecnologia, com o apoio de veículos, robôs e armas, e dotados de sua selvageria, os habitantes de Bangseux criaram um sistema para buscar nas Terras Vazias o recurso fundamental para a conservação de seu estilo de vida hedonista: sobreviventes para conquistar e escravizar.

A muito Bangseux havia cruzado um ponto sem retorno. Ela era o eco de sua própria destruição, um retrato sombrio da humanidade em sua forma mais primitiva. E agora, com uma força de trabalho estabelecida, Bangseux podia gozar de sua perversão e as gangues de maior poder e influência puderam gerir os rumos de uma sociedade degenerada. 

O conflito brutal entre as gangues em busca de domínio e poder perdurou anos até que todas as pequenas organizações fossem assimiladas ou dizimadas pelas maiores. A cidade, por fim, submeteu-se ao controle de seis grandes máfias, cada uma com diferentes contatos e recursos que fazem de Bangseux o ninho de depravação e perversidade que ela desde o início,  destinada a ser. Apesar das rusgas constantes entre estas máfias, uma ainda depende da outra para a sobrevivência de Bangseux.

Os donos de Bangseux

OS DONOS DE BANGSEUX

Nascida das entranhas do caos, Bangseux cresceu orfã sem governo, cultivando inconscientemente um vazio em seus alicerces, propício para ser preenchido pela ambição insidiosa de seus próprios habitantes. Esta ausência de uma liderança, acabou por permitir o controle das seis grandes máfias que hoje a dominam. Cada qual com o monopólio de um recurso essencial.
Dividida, a cidade se contorce em gritos e gemidos, embalados pela cadência regida na relação disfuncional entre essas gangues. Feito um brinquedo disputado, que hora as máfias brincam juntas, ora pleiteiam feito crianças por seu domínio, Bangseux é um grande tabuleiro onde os habitantes são os jogadores e as peças ao mesmo tempo.

Apesar de gerirem a cidade praticamente em conjunto, não há acordo de paz entre os líderes das gangues, o que faz com que cada uma esteja sempre em uma constante tensão entre a desconfiança e o oportunismo. Dentre as sádicas e controladoras mãos que seguram o chicote e as amarras da cidade estão:

A Kuzmacrata

A KUZMACRATA

OS HERDEIROS DE KUZMA

Herdeiros dos conhecimentos de Bohdan Kuzma, os Kuzmacratas destacam-se entre as gangues não pela brutalidade, mas pela mente afiada e maquiavélica. Donos do monopólio da tecnologia, não costumam ser violentos nem conservam a áspera truculência daqueles forjados nos embates constantes pela sobrevivência diária. No entanto, como crias de Bangseux, preservam um sadismo refinado, que se manifesta não em punhos cerrados, mas nos corredores frios de seus laboratórios. Sua linha moral é tênue, quase inexistente. Fazem eperimentos humanos como quem brinca com marionetes de carne, e projetam mecanismos que atendem aos seus prazeres mais obscuros, de intricadas máquinas de tortura a dispositivos sexuais de perversidade calculada.

O conhecimento técnico é a moeda de troca da Kuzmacrata, afinal, são eles os artífices das máquinas e autômatos que mantêm a cidade pulsando, construindo e reparando-as. Senhores das I.A.s desestabilizadas, os Kuzmacratas mantêm o controle sobre a confecção e programação base dos Bottons que são usados por todas as gangues de Bangseux. Todavia, se não bastasse isso para seu poder poder e influência sobre a cidade, os Kuzmacratas também oferecem seu valioso conhecimento médico para os haitantes, contando com exímios cirurgiões em seu bando, especialistas no mais diversos tipos de implantes e próteses mecânicas.  

Cibernéticos, modificados e pérfidos, os Kuzmacratas enxergam-se como cientistas além da moralidade, sendo reconhecidos não somente por seus implantes, mas principalmente pelas extensas tatuagens geométricas e angulares que percorrem seus corpos, as quais desmontram em suas linhas o poder e influência, dentro da Kuzmacrata, daquele que a carrega. A disponibilidade de  recursos tecnológicos fez também com que muitos optassem por aprimorarem-se exageradamente com implantes, sendo algumas das vezes com dispositivos ou funcionalidades que beiram o desnecessário.

Estando na segunda geração de Doutor, alcunha dada a seu líder, os Kuzmacratas seguem uma estrutura rígida, quase monástica, onde o conhecimento é transmitido de mestre a aprendiz. Por prezarem tanto o seu conhecimento técnico sobre as outras gangues, os Kuzmacratas raramente recorrem à mão de obra escrava. Mesmo escravos pessoais e de serviço cotidianos são escassos entre os Kuzmacratas; ao invés de usarem cativos, preferem moldar seus próprios autômatos — os Bottons — à sua imagem e capricho.

Por consequencia da pouca demanda por escravos em sua organização, os Kuzmacratas não têm a necessidade de deixar os limites da cidade para caçar sobreviventes. Ao invés disso oferecem seus serviços em troca de cobaias vivas, mercadoria que as outras gangues se fizeram especializadas.

A Camposecco

A CAMPOSECCO

OS CELEIROS DE ZIMA

Originada nas ruínas de um cassino temático, a Camposecco nasce da aliança de diversas pequenas gangues ao longo da história de Bangseux. De início pouco linear e nada intencional, seu princípio como organização reconstrói os anos de caos da cidade, quando muitos sobreviventes buscaram abrigo dentro das estruturas de Camposecco, o cassino que hoje dá nome a gangue.   

Outrora um tributo extravagante ao imaginário do Velho Oeste, o cassino homônimo, tornou-se fortaleza e refúgio para os miseráveis em Bangseux. Suas dimensões colossais abrigavam não apenas salões de jogo e bares, mas também um teatro de proporções desmedidas, que dispunha de galerias subterrâneas com coxias e baias amplas, estas destinadas aos animais usados nos espetáculos.

Os animais, claro, foram devorados nos primeiros anos sem lei, mas a estrutura, vasta e funcional, tornou-se um refúgio protegido, propício para estocagem de recursos. A abundância de espaço permitiu que os sobreviventes, alguns já organizados em pequenos bandos, encontrassem um frágil equilíbrio, concordando em dividir aquela estrutura que era  mais que suficiente para todos. Essa convivência forçada, em acordo da sobrevivência mútua, logo fez com que esses grupos começassem vagarosamente a se entrelaçar, partilhando espólios e trabalhando em conjunto em prol da proteção de sua fortaleza. Outras pequenas gangues, carentes de abrigo mas em pose de recursos valiosos, também foram assimiladas as estruturas do cassino, consolidando assim a Camposecco como uma entidade coesa.

Com a chegada de Kuzma e as possibilidades de trocas com o Anel Limite, a Camposecco prosperou. Numerosa e adaptável, consolidou-se como uma das potências da nova ordem, que lhes permitiu criar um mercado paralelo de escambo devido aos seus estoques, ao mesmo tempo que, com uma base sólida para sua sobrevivência, eles puderam se dar ao luxo de transcender o essencial, utilizando-se de Kuzma e o Anel Limite para conseguir veículos, armamento e tecnologia.  

Com integrantes concebidos e nutridos na selvageria e agora organizados sob uma mesma bandeira, a Camposecco criou um sistema de escambo eficiente com Kuzma e o Anel Limite. Junto a suas reservas, eles passaram também a estocar excedentes humanos, capturando prisioneiros e desafetos, confinando-os nas antigas baias de animais, e criando, assim, grandes celeiros humanos.

Sólidos em sua base, logo deixaram de apenas sobreviver. A Camposecco foi a primeira entre as grandes facções a atravessar o deserto e explorar além de Bangseux. Tornando-se especialistas em coletar recursos e prisioneiros para além da cidade. Todavia, gerando com isso também, uma desavença silenciosa com os Ghoultrax, que igualmente fizeram de seu modus operandi a captura de escravos para além dos limites de Bangseux.

A liderança da gangue, no entanto, nunca foi estável. Feita de mandatos breves, que sempre findaram em um ato violento, e encerrados invariavelmente em traição ou massacre, a Camposecco teve em sua história uma sucessão de governantes cujo poder era tão volátil quanto a pólvora que carregavam. Poucos foram os que souberam domar a ferocidade de seus companheiros e tiveram o tato de conduzir sua selvageria. Entre eles, destaca-se Baba Zima, a atual líder, que com sua personalidade expansiva e alegre alterna entre um semblante sorridente, de sádico humor doentio, e uma expressão fria e fechada que carrega a perversidade e o ódio no olhar.  

Pelas ruas de Bangseux, os habitantes da cidade apelidaram os integrantes da Camposecco de rancheiros, vaqueiros e, por vezes, cowboys. Apesar de seus alguns realmente utilizarem chapéus dos velhos figurinos o cassino, a alcunha se dá, não pelo modo que se vestem, mas pela maneira que conduzem seus prisioneiros, feito gado, pastoreando-os de fora para dentro da cidade e marcando-os a ferro quente. 

Os Ghoultrax
A Onze e Meia

A ONZE E MEIA

A ETERNA POLITICA DE PAO E CIRCO

A mais antiga e mais influente das gangues de Bangseux é, sem disputa, a Onze e Meia. Afinal, todo cassino, arena, casa de espetáculo ou prostíbulo se contorce sob as linhas da Onze e Meia. Cada dono ou gestor desses estabelecimentos paga a sua cota a gangue, uma taxa que garante não apenas a própria proteção, mas também o financiamento dos grandes espetáculos, lutas, corridas e jogos em geral, que inflam o coração da cidade. O chefe da Onze e Meia opera entregando ao povo a política de pão e circo em seu formato mais cru. Sendo os estabelecimentos mais renomados e lucrativos, todos pertencentes à própria gangue.

No centro desse grande tabuleiro está Bunny, a figura que reina sobre Bangseux com a sutileza de um mestre de cerimônias e a pompa de um astro pop. É o rosto público da cidade, uma estranha mistura de gestor, encantador de massas e demiurgo festivo que conversa com o povo oferecendo-lhes, noite após noite, o sonho fácil e hipnótico dos prazeres urbanos. Sob sua gestão, a Onze e Meia assegura que os desejos mais sombrios da população sejam satisfeitos sem interrupção. Cassinos e clubes permanecem sempre acesos, os palcos nunca fecham, a carne fresca dos bordéis se renova como se brotasse das calçadas, e o cardápio de drogas se estende como um banquete interminável. Tudo isso sustentado pelo trabalho silencioso e descartável de escravos e I.A.s desestabilizadas, peças substituíveis de uma engrenagem criada para manter Bangseux em constante êxtase.

A Onze e Meia surgiu antes mesmo da chegada dos drones do Anel Limite. Quando Kuzma começou as trocas e transações na cidade, foi Bunny quem reinstaurou um sistema financeiro na cidade,  um circuito de crédito, cobrança e circulação de riqueza que acabou moldando a economia de Bangseux quando as trocas com o  Anel Limite cessaram. A figura de Bunny sempre esteve envolta em um limiar entre lenda e realidade. Conta-se que ele já estava em Bangseux antes mesmo do colapso, que era dono de cassinos e bordéis por toda a cidade. E que quando a sociedade moderna se desfez, Bunny não se abalou, afinal a natureza humana sempre procura o prazer, indiferente da desgraça em que vive. Com influência e um poder soturno cuja origem poucos ousam questionar, Bunny sempre soube se proteger e se impor sobre indivíduos, grupos ou organizações que o subestimaram, criando uma rede baseada em favores e medo.

A Onze e Meia consolidou-se sobre a sagacidade de Bunny, que, como um bom articulador,  percebeu cedo que força bruta não bastaria para controlar a cidade. Cercou-se daqueles que detinham algum recurso no início, alguma influência, alguma capacidade de coerção; pessoas que, com o tempo, se tornariam o esqueleto das gangues que surgiam. Bunny estava presente na fundação, ascensão e queda de cada uma delas. Trabalhou próximo de cada líder, favorecendo alguns em uma articulada teia de interesses, até que as seis gangues atuais controlassem, cada uma, o seu próprio monopólio. 

De certa maneira, Bunny sempre trabalhou sozinho, mas soube unir diferentes líderes sob uma mesma bandeira. Conhecedor da pérfida natureza humana, ele uniu aqueles que controlavam cassinos e bordéis, aqueles que movimentavam a vida financeira e o desejo da cidade, e deu a eles um nome, garantiu a ordem e deu-lhes a sensação de domínio sobre seus pequenos estabelecimentos e territórios. 

Sua rede se espalhava como um organismo vivo por toda a cidade. Os donos dos estabelecimentos aprenderam a temê-lo e vieram por juntar-se sob sua bandeira da Onze e Meia. Em troca, a intrincada rede garantia-lhes privilégios, principalmente de poder negociar - fossem escravos com os Ghoultrax ou drogas com os Pharma Rats - sem medo de sofrerem ataques e retaliações, ou mesmo, de estarem interferindo em dinâmicas delicadas entre as gangues. 

A cota paga por esses estabelecimentos à Onze Meia era o sangue que alimentava e fazia circular os espetáculos, as lutas e as corridas; e aqueles estabelecimentos, mesmo já sendo parte da Onze Meia, que não pagavam, sabiam que a contrapartida era a retaliação de Bunny. 

Conforme os anos e décadas passaram, e as seis gangues se firmaram em Bangseux, Bunny aprimorou uma rede de acordos, favorecimentos e intimidações que asseguravam não só sua permanência e seus caprichos, mas a força combinada de todas as gangues para a existência da cidade. Inclusive, servindo de principal ponto de equilíbrio e utilizando-se de uma contra as outras para manter uma instável estrutura de paz.

Qualquer ataque a um estabelecimento da cidade era um ataque à Onze e Meia. Intrigas e disputas menores sempre povoaram Bangseux e, com eles, sempre houveram efeitos colaterais. Mas a guerra entre gangues nunca teve espaço para eclodir, pois se uma das gangues ousasse incomodar Bunny e sua delicada harmonia caótica, isso seria um decreto de que ele se utilizaria de seu poder e influência sobre as outras gangues para dizimá-la. Preservando assim uma paz forjada pelo medo e sustentada por alianças tão frágeis quanto indestrutíveis.

Mas é difícil discorrer sobre a Onze e Meia sem falar intimamente de Bunny, sobre essa sua aura que mantém até os chefes mais violentos em seus lugares.  Seu nome verdadeiro se perdeu em camadas de identidade, tempo e destruição. Afinal, até onde se sabe, ele já teve muitos outros nomes antes mesmo do impacto. O apelido, Bunny, veio da máscara de coelho que jamais abandona, uma feição imóvel e insondável que oculta o rosto por trás de todos os discursos, aparições e negociações. Poucos foram aqueles que tentaram tomar o poder das mãos de Bunny e todos aqueles que tentaram, sumiram ou foram brutalmente mortos com requintes de crueldade. Fato este que somente agrega mais mistério a sua atmosfera enigmática, pois, curiosamente, Bunny não tem uma aparência forte, nem mesmo atlética. Seus movimentos não sugerem brutalidade e, em Bangseux, apenas ser sádico ou insano não garante a sobrevivência. O trunfo de Bunny é outro. Ele sempre esteve ali, atravessando épocas, desastres e colapsos, sugando de seus inimigos, alimentando-se da cidade, da força vital de cada habitante. A um tempo incontável, Bunny é Bangseux.

Seu domínio cresceu com as décadas desde o colapso, espraiando-se enquanto outras gangues também ganhavam poder e números. Mas para Bunny, guerras internas eram desperdício. Cada gangue rival controlava algo essencial para Bangseux e destruir uma significava fragilizar a cidade inteira. Conservar o equilíbrio e manter cada líder em seu posto, sempre fora a melhor estratégia para assegurar seus caprichos e sua própria sobrevivência. Afinal, todos eles cairiam cedo ou tarde, fosse por conta própria, pelos outros ou ação do tempo. E, se há algo que Bunny tem de sobra, é tempo. Séculos de existência manipulando os homens, e mais séculos por vir para possuí-los, pois no fim essa é sua natureza inevitável, porque Bunny é um vampiro.

E, como todo vampiro antigo jamais segue pelo tempo sem aumentar sua espécie, a verdadeira Onze e Meia, oculta na escuridão, é constituída de uma dúzia de servos vampíricos, instrumentos perfeitos, seres selecionados para agirem nas sombras e manterem o controle sobre aqueles donos de estabelecimento que creem fazerem parte da gangue.

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